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Da doçura de mãe à rispidez do chão de fábrica

  • Folha do Oeste - Neli trabalha no setor de abate de suínos

Trabalhadoras de unidades fabris precisam incorporar a severidade de dia e se dedicar com ternura à família durante as noites

Há 22 anos funcionária da Cooperativa Central Aurora Alimentos, de São Miguel do Oeste, Neli Teresinha Orth, de 40 anos, só pensa em deixar o trabalho depois que se aposentar. Jovem, ainda com 18 anos, ela ouvia o irmão comentar sobre o trabalho na unidade fabril e teve vontade de trabalhar também. Levou um currículo, fez entrevista e foi chamada dias depois.

Sem medo de preconceitos ou sobre o que outras pessoas iriam falar, começou a trabalhar na sala de retalhos do frigorífico e hoje atua na sala de abates. Do que muitas poderiam até ter nojo, Neli tem como profissão. “A gente aprende muitas coisas. Trabalhamos num sistema de rodízio, cada pouco mudamos de função dentro do setor. Isso é bom porque a gente sabe fazer de tudo um pouco”, explica.

Mãe de um rapaz de 19 anos e de uma menina de cinco anos, ela sabe que acumular as funções da vida profissional com as de mãe de família e dona de casa não é uma tarefa nem um pouco fácil, mas que também não é impossível de ser feita. Para isso, assim como outras colegas de trabalho, ela conta com a ajuda do companheiro. “Ele sabe fazer todos os serviços de casa. Me ajuda em tudo. Lava, passa, sabe cozinhar. Quando eu tive o meu primeiro filho e a gente não tinha condições de pagar alguém pra me ajudar, quem fez tudo foi ele”, conta.

Com a responsabilidade de quem começa a jornada de trabalho às 7h30 e encerra às 17h20, Neli se sente orgulhosa de poder trabalhar e ter o apoio do companheiro para isso. “Hoje nós temos uma casa, carro e, tudo isso conseguimos porque sempre ajudei nas contas de casa. Se quando o casal trabalha já está difícil, imagina se fosse só um”, relata e complementa dizendo que, tendo seu próprio salário, as mulheres se tornam independentes não só para comprar o que querem, mas também para expressar a sua opinião sobre as coisas.

Já finalizando o relato sobre a jornada dupla, e às vezes até tripla, Neli destaca que muitas mulheres ainda não trabalham fora de casa porque sabem que o marido não ajuda e ficariam sobrecarregadas. Ela as encoraja dizendo que se tomarem atitude de entrar para o mercado de trabalho, o relacionamento em casa pode mudar e os maridos podem perceber a importância de ajudar nos afazeres domésticos.

Exemplo para criar oportunidades

Desde o ano de 1980, quando a unidade fabril da Cooperativa Central Aurora Alimentos de São Miguel do Oeste contratou as sete primeiras funcionárias, por falta de mão de obra masculina, o número de contratadas só aumentou.

O gerente da unidade, Moisés Caetano de Oliveira Júnior, comenta que, atualmente, do total de 835 colaboradores, 300 são mulheres, o que representa 36% dos trabalhadores. Cita que, destas, aproximadamente 250 trabalham no chão de fábrica. Elas atuam em setores como preparo de embalagem, corte de carnes e embalagem de produtos. “Elas são mais dedicadas, detalhistas e por isso se encaixam melhor na finalização dos produtos, já que observam melhor a qualidade deles”, enfatiza.

Em 2009, ao enfrentar dificuldades em contratar mão de obra masculina, a cooperativa precisou buscar alternativas para não parar a produção. Foi então que uma comissão ergonômica, liderada por uma fisioterapeuta, fez estudos sobre cada um dos postos de trabalho da unidade fabril. As atividades foram analisadas e outros postos puderam ser preenchidos por mulheres.

De acordo com o gerente, se outros postos de trabalho pudessem ser preenchidos por mulheres, assim seria feito, mas, atualmente, o número de contratações femininas está no limite. “As mulheres trabalham tanto quanto os homens, mas muitas atividades exigem força física e não há como comparar, de forma geral, o desempenho de homens e mulheres. A produtividade é a mesma, ou até melhor por parte das mulheres, desde que cada um esteja atuando em funções adequadas, que não prejudiquem, por exemplo, a saúde do trabalhador”, explica.

Oliveira Júnior ressalta, ainda, que a maioria das trabalhadoras da unidade da Aurora Alimentos, de São Miguel do Oeste, é mãe de família. Justamente por isso, tem admiração pelas profissionais que acumulam os afazeres de casa, a atenção ao marido e aos filhos com as atividades diárias na cooperativa.

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