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Ressocialização pode dar certo
O trabalho desenvolvido no Casep de São José do Cedro mostra que a aplicação de medidas socioeducativas pode trazer resultados
O processo que envolve a prevenção do envolvimento de crianças e adolescentes em crimes e no mundo das drogas passa pela educação, pela estrutura familiar, pela realidade social, política e econômica, e pelo comprometimento da sociedade. Fazer de conta que um problema não é seu somente porque não é um filho, um irmão, um neto ou um sobrinho que está envolvido com drogas ou em outros crimes, não é solução. Antes disso, é facilitar a possibilidade de ser uma vítima.
Para tratar sobre as principais razões de internação e sobre o posterior trabalho de ressocialização, visitamos o Casep (Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório) de São José do Cedro. A coordenadora Elizete K. Batista de Lima explicou que o centro, mantido com recursos repassados mensalmente pela Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania, é administrado pela Associação Betânia desde 2004. No entanto, a internação de infratores é feita no município desde o ano 2000.
As atividades são fundamentadas no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), assim como nos outros centros de Xanxerê e Concórdia, e na Casa de Semi-Liberdade de Concórdia, também administrados pela Associação Betânia.
Em São José do Cedro, atualmente, seis das 10 vagas disponíveis para meninos estão ocupadas. São atendidos com medidas socioeducativas os residentes na região Oeste, preferencialmente na área de abrangência das SDRs (Secretaria de Desenvolvimento Regional) de Dionísio Cerqueira, SMOeste, Itapiranga e Dionísio Cerqueira.
Os motivos pelos quais os adolescentes são encaminhados pelo Poder Judiciário ao Casep variam. No que tange à região, os atos infracionais mais comuns são furto, descumprimento de prestação de serviço comunitário, não-voluntário, dano ao patrimônio público, formação de quadrilha e ameaça. A maioria dos adolescentes atendidos tem entre 15 e 17 anos.
ATIVIDADES NO CASEP
De acordo com a coordenadora, assim que chegam ao centro, os adolescentes são inclusos em um planejamento diário de atividades. “É como se fosse uma casa. Eles acordam, fazem a higiene pessoal, tomam o café da manhã, depois fazem a limpeza do centro e participam de atividades socioeducativas”, comenta.
As ações vão desde jogos, artesanato - bordados em chinelos, porta-joias, vasos, decorações em caixas e trabalhos com papel -, jardinagem, aulas ministradas por professores do Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos) até o atendimento prestado por médicos, enfermeiras, dentistas, assistente social e psicóloga. Outras iniciativas, como a confecção dos documentos, a viabilização de cursos profissionalizantes, palestras e o ensino religioso aos sábados, ainda fazem parte do cronograma.
No momento, o Casep conta com quatro educadores sociais homens e duas mulheres, uma assistente social, uma psicóloga, uma assistente social, uma cozinheira e uma coordenadora. O atendimento médico é prestado pela equipe do ESF (Estratégia de Saúde da Família) da Secretaria de Saúde. “A principal dificuldade enfrentada é a falta de um psiquiatra. Seria bom se houvesse um profissional no município. Quando as crianças ou os adolescentes chegam aqui, geralmente estão nervosos, choram. Levamos ao médico e já agendamos uma consulta psiquiátrica, mas sem profissional fica difícil”, relata Elizete.
No ano passado, o trabalho realizado pelo CASEP de São José do Cedro foi destacado no Estado por parte do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), pelo trabalho competente realizado pela equipe.
A DIFICULDADE DE RESSOCIALIZAÇÃO
A falta de um psiquiatra é apenas um empecilho para o funcionamento eficaz do plano de ressocialização dos infratores. Segundo aponta a assistente social do Casep, Raquel Dal’Alba, também é importante a implantação de um CAPSad (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e Drogas) na região.
Segundo ela, o CAPSad é um serviço especializado em saúde mental que atende as pessoas com dependência de álcool e outras drogas em cuidados diários, semanais ou mensais, conforme a intensidade do problema. A ação pode substituir a internação psiquiátrica e atua com o objetivo de promover a reinserção social com medicação, terapias e atenção familiar.
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ORGULHO DE RESULTADOS POSITIVOS As ações de ressocialização que já vem sendo desenvolvidas no Casep de São José do Cedro resultaram num projeto. Nele estão previstos o tratamento para dependentes químicos, a preparação para o trabalho e o acompanhamento da família até seis meses após a saída do adolescente, entre outros. Por mais que algumas ações dependam ainda de parcerias para serem desenvolvidas, alguns frutos já vêm sendo colhidos. Dentre os infratores que já passaram pelo Centro, há alguns capazes de demonstrar que a ressocialização é possível. Com ajuda da família, atendimento da rede de apoio e incentivo ao trabalho, adolescentes que hoje já são homens, mudaram de vida. A coordenadora do Casep comenta que esses são motivo de orgulho. Eles mostram que, se houver comprometimento da sociedade como um todo, é possível a reinserção social. |
A assistente social salienta que dá para se dizer que 99% dos internados são usuários de algum tipo de droga, desde álcool até as mais pesadas como crack. “Quando eles chegam, é feito um estudo social com todas as informações sobre o adolescente, a família e onde ele vive. A gente percebe que eles apenas reproduzem a violência que sofreram em casa, na sociedade ou o exemplo do meio em que vivem”, frisa.
No Casep, os adolescentes ficam em quartos separados, recebem atendimento individual, familiar e em grupo - dinâmicas e reflexões - da psicóloga e da assistente social. As ligações telefônicas, a visita da família aos domingos por uma hora e as terapias desenvolvidas pela psicóloga Mauriane Françozi também têm o intuito de ressocializar.
A coordenadora do Casep enfatiza que no período de internação é possível observar a melhora no comportamento e a vontade de mudar por parte dos adolescentes. “Eles se apegam aos educadores e a gente acaba criando expectativas. Aqui, eles pedem licença, fazem as tarefas, dizem que querem estudar e trabalhar quando saírem do centro. Eles têm acompanhamento, mas quando saem ficam perdidos devido à falta de continuidade desse trabalho no município de origem. Por isso voltam a cometer atos infracionais”, ressalta.
Segundo a assistente social Raquel Dal’Alba, a família do adolescente deve receber atendimento da rede de apoio durante o tempo que o infrator está internado e mesmo depois que ele retorna à casa. “Nós procuramos manter contato com os municípios de origem, mas nem todos realizam esse trabalho. Há uma dificuldade em fazer essa ponte. Eles retornam ao meio em que viviam e voltam a reproduzir a violência que acompanharam desde crianças”, explica.
Lazer também integra cronograma de atividades
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