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Um mês após o tornado, cena pouco mudou e destruição pode ser vista em todos os lugares
Agricultores reclamam da falta de agilidade na liberação de recursos para reconstrução
No dia em que completou um mês do tornado que varreu comunidades inteiras no interior de Guaraciaba, repórtes do Folha do Oeste foram até os locais da destruição para saber como as famílias estão fazendo para reconstruir os bens materiais e tentar fazer com que suas vidas voltem ao normal, mas o que ficou evidenciado é que, para tal acontecer, haverá ainda uma granda demanda de tempo. Dezenas de casas continuam destruídas e abandonadas. Alguns moradores, com o auxílio de voluntários, reconstruíram residências provisórias com a madeira que sobrou da "maldição" que ocorreu na noite do dia 7 de setembro e acabou matando quatro pessoas. Outras simplesmente "desapareceram" e muitas propriedades continuam abandonadas. A impressão que se têm é que realmente uma bomba foi lançada, devastando tudo. Nem mesmo as árvores, que agora na primavera normalmente estariam verde, mostram vida. Quase tudo é cinzento. Em alguns locais ainda é possível sentir mau cheiro e ver animais mortos em decomposição. Em uma propriedade na linha Tigre, a reportagem do Folha observou animais mortos e comunicou a prefeitura, que por sua vez imediatamente resolveu o problema. Casos assim a administração pede que a própria população faça o comunicado, para serem tomados os devidos cuidados. Na propriedade da família Nofre, em linha Sede Flores, onde a casa foi totalmente destruída e as pessoas se salvaram graças a um Fusca que estava no porão, voluntários construíram uma casa provisória de madeira, utilizando o material que restou da residência antiga. Na casa deles não havia ninguém no momento da catástrofe. Ambos estavam na lavoura plantando fumo. Eles ainda não têm o galpão reconstruído, porém, até a safra, a meta é reerguê-lo, para armazenar a produção. Cerca de 70 metros adiante encontramos o aposentado Olímpio Nofre, que mora com sua esposa, ainda reconstruindo sua propriedade. A residência do casal já estava em pé, tendo sido reconstruída com o que sobrou da madeira da residência antiga. "Meus dois filhos que moram no Rio Grande do Sul vieram para cá ajudar na reconstrução. Sentimos muito medo naquela noite. Minha esposa foi salva pelo guarda-roupa, que ficou escorado na parede", lembra. Segundo o idoso, atualmente, quando deita para dormir, o sono vem com naturalidade e também pelo cansaço de estar praticamente todo o dia lidando com construções. Demonstrando muita força de vontade e coragem, ele relata que mesmo com todo a tristeza e destruição, não pensou em nenhum momento em abandonar a propriedade rural. "Aqui é meu lugar de viver e quero sempre permanecer aqui. Sei que não será fácil voltar à vida normal, talvez leve anos para tudo voltar como era antes, mas não irei desanimar", contou Nofre. No outro lado de uma sanga, a propriedade dos Nofre faz divisa com a propriedade da família Tersi, onde faleceu a pequena Ana Paula. A casa da família está totalmente abandonada e segundo informações dos moradores, o casal que perdeu a filha não voltará mais para o local. Não muito longe dali, na propriedade da família de Lauri Omizollo, em linha Tigre, a casa de alvenaria não foi toda destruída, porém, como as estruturas ficaram abaladas, os moradores tiveram que dar fim à boa parte do que ficou em casa. Como ali residem duas famílias, dois ônibus foram emprestados para eles fazerem de moradia provisória. Entre um veículo e o que restou da casa, foi puxada uma lona. Ali embaixo foi colocada uma mesa para as refeições e também instalado provisoriamente o fogão à lenha. "Recebemos muita ajuda de gente que nunca tínhamos visto na frente, mas dos governos não recebemos nada. Não sei o que está acontecendo, que está demorando muito", reclamou. Questionado sobre o montante de prejuízos, Lauri diz não saber calcular quanto foi perdido. Somente na reconstrução da casa, ele estima que custará cerca de R$ 100 mil. A principal dificuldade dele é ter recursos para a reconstrução. "A gente tinha um dinheiro que era para o giro, mas não para gastar numa desgraça dessas. Vai anos para nós se endireitar denovo", lamenta. Antes do tornado, ele lembra que entregava para a Laticínios cerca de 11 mil litros de leite por mês e agora a produção baixou para 6 mil litros. Além disso, o agricultor informou que o preço pago pela Laticínios baixou Na lavoura, o agricultor informa que não conseguiu mexer em nada, porque tinha muito entulho no meio da lavoura de trigo. "A plantação pegou ferrugem e agora a única renda que temos é o leite. Nos primeiros dias, quando olhava a destruição, desanimei e pensei em abandonar a propriedade, pois não tinha vontade para nada. Mas com a ajuda de voluntários fui me motivando. Não consegui nem ir ao enterro de minha tia, a Nona Lazzari, que faleceu no tornado", lembrou. Lauri mostrou indignação com a seguradora de sua residência. De acordo com ele, o seguro deveria cobrir um montante de R$ 90 mil mas liberou R$ 10mil. "Acionei um advogado para reverter essa situação. Ainda tiveram coragem de ligar para nós e pedir se a gente estava contente com esses R$ 10 mil. A situação que passamos não é uma brincadeira", finalizou. Outra comunidade também devastada, que teve inclusive igreja, salão comunitário e até ginásio de esportes destruídos, foi a linha Guataparema. Na propriedade do agricultor Levi Frare, encontramo-lo com mais quatro homens reconstruindo um chiqueirão, onde são alojadas as porcas criadeiras. Ele reclamou que está tudo muito confuso e enrolado em razão dessa questão dos recursos de emergência. "Calculo que com a destruição dos chiqueiros, da casa e com o que vou deixar de produzir nos próximos seis meses, os prejuízos cheguem a R$ 900 mil. Tenho 11 vacas de leite que deixei na propriedade de um conhecido que está tirando e vendendo o leite. Só sobrou a metade do assoalho de minha casa. Por minha vontade já teria acampado à beira do asfalto e ficado aguardando ajuda do governo. Eles têm mais incentivo do que nós, que produzimos. Precisamos também da ajuda dos políticos, porque desta forma não adianta, já que no ano que vem terá eleição e eles vêm pedir voto", desabafou. A estimativa dele é já realojar algumas porcas na próxima semana para começar a ter alguma atividade prática, pois já são 30 dias sem gerar renda na propriedade. Desde o dia da tragédia, a Escola Básica Júlio Vicente de Pelegrin está impossibilitada de ter aulas. Os 170 alunos do pré-escolar até a 8ª série se deslocam diariamente até o Salão Paroquial, onde têm aulas improvisadas. Conforme a diretora Carli dos Santos, a situação é complicada, porque a todo momento são necessários materiais diferentes e gera um transtorno. "Os alunos ainda estão amedrontados. No amanhecer de terça-feira houve ventos fortes e as crianças entraram em pânico. Em algumas turmas faltaram até oito alunos. Estamos fazendo o possível, com muitos improvisos, para as crianças não perderem aula", afirma. Carli revela que alguns alunos excelentes estão agora desanimados, sem vontade de estudar e dizem que vêm à aula porque são obrigados. "Psicólogos também estão fazendo sua parte para tentarmos reverter essa situação. Aos poucos queremos que a situação se normalize", resumiu a diretora.
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