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Romenos chegaram à região no início do século passado
Entre as regiões históricas da Romênia está a Bessarábia. Uma localidade que abrange 155 cidades e está localizada às margens do Mar Negro. E é desta região, principalmente das localidades de Krasna, Teplitz, Beresina e Tarutino, que vieram os imigrantes para o Extremo Oeste.
Nicodemos Müller é um dos imigrantes romenos que chegou à região ainda pequeno, com apenas três anos. Sem muitas lembranças de sua terra, ele faz questão de pesquisar e manter viva a história de seus antepassados. Historiador e escritor, Müller não deixa nenhuma recordação se perder, e aos 86 anos conta com orgulho e exatidão como os romenos chegaram (às terras brasileiras que fazem fronteira com a Argentina) à região e como buscam preservar a cultura do seu povo.
De acordo com ele, na virada do século XVIII a vida na Alemanha não estava muito boa para muitas pessoas, o que fez com que muitos procurassem outros países para viver. Um grupo alemão chegou a ingressar na Polônia, porém a língua polonesa se tornou muito difícil para essas pessoas. Foi então que a primeira-dama da Rússia fez uma proposta para que esse povo fosse para o sul da Rússia, onde ficava uma boa parte de terras férteis, próximo ao Mar Negro. 
Em 1813, a primeira caravana foi para aquela localidade, chamada Bessarábia, e como incentivo o governo deu um pedaço de terra para cada um. Por volta de 1900, a Bessarábia se tornou o lugar mais bonito da região e espelho do leste europeu, mas por pouco tempo, pois em 1914 eclodiu a Primeira Guerra Mundial, que durou quatro anos. Quando ela acabou, muitos países estavam desolados, principalmente nas terras da Bessarábia. "Ficamos um tempo sem pátria. Então a Romênia adotou esta terra com a condição de que todo o povo se naturalizasse romeno", explica.
Segundo o historiador, anos mais tarde a localidade já estava recuperada. Entretanto, começou a se divulgar que a Rússia tentaria retomar a Bessarábia. E, com medo de uma nova guerra, os romenos começaram a deixar suas terras e migrar para outros países, como Chile, Argentina, Estados Unidos e Canadá. Ocorreu uma forte emigração. "Meu pai, que era ex-combatente da Primeira Guerra, dizia: 'Eu quero ir embora, eu nunca mais quero ver uma guerra. Não quero mais levantar a arma contra um irmão'. Minha família morava bem na faixa da fronteira, e sem dúvida seria atingida se permanecesse ali. E de fato o encontro das armas foi naquele local", lembra.
A família Müller decidiu partir, seguindo até a Alemanha para pegar um navio. E o primeiro que apareceu veio justamente para o Brasil. Antes disso, a família romena teve que esperar Nicodemos, que nasceu em 1929, completar seis meses, pois só era permitido viajar a partir desta idade devido à 'Doença do Mar' - assim chamada por ser contraída em virtude de ficar muitos dias em alto mar, no balanço do navio. "Chegamos em Santos sem dinheiro, mas como era época de plantio de café no Brasil, minha família começou a trabalhar em uma fazenda em Montebelo, onde ficamos por cerca de dois anos", salienta o morador de Cristo Rei, em São João do Oeste.
Como na época não tinha escola em Montebelo, seu pai, que sabia o quanto valia o estudo, pois era formado em Contabilidade, percebeu que o futuro não seria naquela localidade. Neste período, um primo de sua mãe, também vindo da Romênia e que já estava na região, convidou a família para vir para o Extremo Oeste, que estava sendo colonizado por alemães, mais precisamente nas áreas onde ficam hoje os municípios de Mondaí, Itapiranga, São João do Oeste.
Em Mondaí, era uma colonização nova mas com força na religião evangélica. Então os Müller optaram, assim como outras famílias romenas, por ir para Porto Novo, hoje Itapiranga, que era colonizada por alemães, porém com ênfase na religião católica. "Como não tínhamos dinheiro para comprar terra, pagamos a entrada do contrato com o serviço braçal na abertura das estradas desta região", relembra Nicodemos. Quando aconteceu a 2ª Guerra Mundial, as famílias, como eram estrangeiras, tiveram que deixar a região e ficar vagando de cidade em cidade. Foi um período difícil, mas o povo romeno não desistiu, e depois de um tempo voltou para a cidade.

A história da imigração do Romênia para o Brasil se repetiu com diversas famílias, entre elas a de Rufina Kunz, esposa de Nicodemos, que também morava na Bessarábia, na Romênia. Sua família desembarcou de navio em Uruguaiana no ano de 1930, vindo a morar na região, como a maior parte dos imigrantes. Rufina chegou com dois anos ao Brasil, junto com os pais e a irmã mais velha. O destino uniu os imigrantes novamente quando moraram na região, pois os dois que vieram da Bessarábia moraram em linha Popi.
Hoje, Nicodemos com 86 e Rufina 87 anos, moram em Cristo Rei, São João do Oeste. "Dancei com ela a primeira música, e a partir daí namoramos, casamos e tivemos 13 filhos: Lucia Maria, Jacinta, Iria, Líria, Clarinda, Florentina, Arcídio, Elaine, Maricilda, Cléria, Rosane, Valmei e Marilei. Casado já há 67 anos, Nicodemos, escritor do Livro Histórias de um balseiro, revela que a história dos romenos segue viva na família.

Canísio Müller também é filho de imigrantes. Sua mãe, Clementina, veio da Romênia com cinco anos e seu pai Georg (Jorge) Müller com sete anos. O pai é pioneiro da comunidade de Santo Antônio, Itapiranga. Casou-se em 1947 e teve 12 filhos. Hoje, Jorge está com 94 anos e Clementina 90 anos.
"A nossa história é uma história viva, pois muitos imigrantes estão vivos. Eu escutava meus avós falarem entre si no idioma romeno, mas como a região é alemã eles foram obrigados a falar em alemão. Porém, a gastronomia, característica da cultura romena permaneceu", ressalta Müller, que também é integrante da Associação de Romenos Bessarabianos.
ASSOCIAÇÃO
Fundada em 1989 com o objetivo de manter e cultivar a cultura romena, a Associação dos Bessarabianos do Extremo Oeste, primeira da América Latina a ser reconhecida pelo Governo Romeno, tem se fortalecido cada vez mais, sendo hoje uma entidade de destaque na região.
Além de promover encontros entre imigrantes e descendentes, a associação desenvolve diversas atividades paralelas e realiza tradicionalmente, uma vez por ano, a Festa da Cultura Romena. O grupo ainda trabalha várias propostas para beneficiar a comunidade local, dentre elas oferecer assistência para que a população possa fazer a nacionalidade romena. A afirmação é do atual presidente da Associação, Everton Cristiano Dreher. Segundo ele, para isso, o primeiro passo adotado é a realização de um Curso da Língua Romena. "Por meio desta capacitação estamos tentando proporcionar ferramentas para o pessoal conseguir a dupla cidadania. Além de trabalhar o idioma, outras metas da Associação são: fortalecer a questão da culinária, promover intercâmbio e desenvolver a dança na região", ressalta.
A Associação, que já recebeu a visita da embaixadora Diana Anca Radu por duas oportunidades, conta com um Cônsul Honorário na região, tem sua sede em Linha Santo Antônio, Itapiranga. No local também há um memorial do povo romeno, réplica da Cruz de Krasna.
Atualmente, a entidade conta com nove imigrantes vivos, moradores nas cidades de Mondaí, Itapiranga, São João do Oeste e outras. E, conforme Dreher, se acredita que tenha cerca de seis mil descendentes, onde praticamente todas as famílias estão envolvidas a Associação.
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