Estado entrega 31 ambulâncias e motolâncias do Samu aos municípios |
Atitudes que não tem dinheiro que pague
Solidariedade prestada aos atingidos pelo tornado em Guaraciaba é tão forte quanto a força destruidora dos ventos
No primeiro final de semana após o "tornado da independência", que devastou Guaraciaba no dia 7 de setembro, a cena no interior do muicípio continuava sem explicação. Devido à força destruidora dos ventos, que oficialmente passou dos 200 km/h, é impossível descrever a destruição e o sofrimento das pessoas que viveram a maldita noite da segunda-feira, dia 7. Muita gente de toda a região, demonstrando solidariedade e amor ao próximo, reservou os dois dias do final de semana para prestar algum tipo de apoio, principalmente aos agricultores. Alguns levando donativos e outros trabalhando junto às propriedades arrasadas pelo tornado, mostraram que de mãos dadas é possível diminuir o sofrimento dos seres humanos, pelo menos daqueles que perderam bem materiais, pois as quatro vidas que se foram não há como confortar os familiares sobreviventes da tragédia. Na linha Sede Flores, na propriedade da família Nofre, as quatro pessoas escaparam com vida refugiando-se no porão da casa de madeira. Nesta casa, durante o final de semana, a tristeza deu lugar à esperança. Uma equipe de 11 pessoas, a maioria funcionária da empresa Reformóveis, de São Miguel do Oeste, juntamente com demais familiares do proprietário João Alcides Schneiders, reservou os dois dias para construir uma moradia provisória para a família composta de quatro pessoas. "Vimo-nos na obrigação de ajudar pelo menos uma família. Apenas cestas básicas e roupas não adiantam, eles precisam de um lugar para morar e guardar as coisas. Nossos funcionários vieram de boa vontade e não tem dinheiro que pague uma ação dessas. Vamos reerguer a casa, não será um palácio, mas a família já terá onde ficar", disse Schneiders, que nem parou o trabalho para a entrevista, pois estava ajudando na colocação das tesouras. O mecânico Volnei Valandro também foi um dos que não mediu esforços para ajudar os guaraciabenses e trabalhou todo o final de semana. "O pessoal perdeu tudo, e se ninguém ajudar não conseguirão se reerguer. Só tinha visto isso em filmes. Como na semana a gente trabalha, resolvi dar a contribuição no final de semana", relatou. No mesmo local, o filho mais novo da família, de quatro anos de idade, brincava dentro do que sobrou de um guarda-roupa, pois fora dali só existia barro. Ele recebeu alguns brinquedos arrecadados pelo Folha do Oeste em casas de familiares e amigos de funcionários do jornal. O pequeno João Victor Santin, de 10 anos, que doou mais de uma dezena de brinquedos, todo tímido, afirmou que quer ajudar as criancinhas, que agora não têm brinquedos nem casas. "Eu tenho um montão de brinquedos e esses que dei não farão falta porque tenho bastante. Dei até meu patinete", disse João Victor. Ainda no sábado à tarde, na propriedade da família Lazzari, onde a matriarca da família Judite Lazzari acabou falecendo, encontramos integrantes do Jeep Clube Guaraciaba e São Miguel prestando seu apoio, com 10 veículos e cerca de 30 pessoas. O jipeiro Geraldo Domingo Ebertz disse que desde terça-feira de manhã os jipeiros estão ajudando. "Estamos dando nossa colaboração, e nessa catástrofe o 4x4 não poderia ficar de braços cruzados. Só vendo para acreditar nos estragos", resumiu. Já o jipeiro de Guaraciaba, Toninho de Almeida, afirmou que os colegas estão fazendo limpeza nas propriedades, juntando entulhos e colaborando com as pessoas no que estiver ao alcance. "Toda a tarde temos equipes transportando lonas, água e outros matérias de socorro para as vítimas", revela. Na propriedade da família Omizzolo, em linha Tigre, a destruição também foi impressionante e restaram de pé somente algumas paredes de concreto. No local, um ônibus dos empresários Luiz Luft e Jair Digal, de São Miguel, está desde a semana passada servindo como moradia provisória para a família. "Na terça de manhã fomos para Guaraciaba e ajudamos pessoas, distribuindo lonas e tudo mais. Inclusive trouxemos várias pessoas para o centro da cidade, pois estavam molhadas e com muito frio. Inclusive reviramos muitos escombros em busca de vítimas", lembrou Luft, que afirmou ter ficado muito emocionado com a cena. Marilene Omizzolo, com lágrimas nos olhos, disse que antes do tornado tinha todo o conforto na residência e agora depende dos outros. "Nos sentimos felizes porque o pessoal está ajudando, mas ao mesmo tempo há angústia dentro do peito. A gente tinha para ajudar e agora recebemos ajuda dos outros", diz ela. Inclusive nesta mesma propriedade, com o tornado, a água do açude e os peixes, que ali estavam, desapareceram. Na mesma comunidade, o casal Natalin e Dilva Lazzari estava no centro de Guaraciaba no momento do tornado. Na casa deles também residia um outro casal com uma filha, e, quando chegaram, viram a casa somente em escombros e ouviam as bonecas à pilha cantarem. "A gente achou que eles estavam soterrados, mas felizmente eles não estavam na casa no momento. Aqui também tínhamos um mato nativo que nunca teve uma árvore cortada e tudo foi arrancado", afirma. O prefeito de Santa Helena, Gilberto Giordano, e uma equipe de funcionários também estiveram no final de semana trabalhando. "Ajudamos durante toda a semana com donativos e trabalho braçal. Cada um que vai até Guaraciaba tem vontade de voltar para ajudar e reanimar as famílias que perderam tudo. Corta o coração da gente ver isso, mas é preciso repassar coragem para as famílias recomeçarem. A gente sofre junto, mas ninguém pode baixar a cabeça", destaca.
Mais sobre:







Deixe seu comentário