Acidentes resgatam discussões sobre problemas na BR-282
Obra teria sido superfaturada e feita em desacordo com o projeto de engenharia
O acidente que vitimou um motociclista no último domingo, dia 19, na cabeceira da ponte sobre o Rio Camboím, na BR-282, acesso entre Paraíso e São Miguel do Oeste, reacendeu as discussões sobre a maneira como foi executado o projeto de pavimentação asfáltica no trecho que deve se tornar um corredor bioceânico, entre Brasil e Argentina.
Assim como os moradores próximos ao local, a população que utiliza a rodovia também reclama da periculosidade ao passar pela ponte onde duas pessoas já perderam a vida e outras ficaram feridas em razão de colisões. O agricultor, que mora na comunidade de São Pedro, interior de São Miguel do Oeste, Camilo Dala Rosa, disse que até mesmo para quem conhece a rodovia é perigoso passar sobre a ponte. “O motorista que não conhece, ou até quem conhece e não reduz a velocidade, pode se perder fácil, fácil. O volante puxa, tanto quando vem de um lado quanto do outro da ponte”, relata.
Ele ainda conta que a proteção na cabeceira da ponte já estava retorcida em virtude de outro acidente e arrisca dizer que, talvez, se tivesse sido feito um serviço de manutenção, o último acidente não teria sido tão grave. O agricultor complementa dizendo que se não forem tomadas providências para modificar a estrutura, outros acidentes poderão acontecer.
A mãe do agricultor, a aposentada Emília Dala Rosa, que mora bem próximo à divisa entre as linhas Gramadinho e Canela Gaúcha, lembra que antes não havia uma ponte no local. Os motoristas tinham que passar sobre um acesso com tubos, que ainda hoje existe, ao lado da estação de captação de água da Casan. Ela comenta que a ponte começou a ser construída por uma empresa e que, por motivos que ela desconhece, foram concluídos por outra. A moradora entende que nesse momento já deveria haver algum problema com a execução da obra.
Superfaturamento e irregularidades
O presidente da comissão binacional, Darci Zanotelli, denuncia que a pavimentação no trecho da BR-282 apresenta vários problemas. Segundo ele, o processo já começou errado por volta do ano 2000, quando foi realizado o processo licitatório. A obra teria sido superfaturada, com orçamento de cerca de R$ 35 milhões.
O assunto foi discutido em audiência pública com a participação do poder público, de entidades e a sociedade de Paraíso e de São Miguel do Oeste, o que resultou na redução de R$ 5 milhões no valor. Entretanto, em 2008, quando foi dada a ordem de serviço, havia autorização do Governo Federal para aplicação de R$ 68 milhões. O presidente da comissão Brasil-Argentina diz que foi o único a questionar a diferença do valor liberado na época, assim como teria feito em relação ao traçado da rodovia, que não teria sido executado de acordo com o projeto.
Zanotelli critica a postura de lideranças e políticos que não cumpriram com o dever de fiscalizar a aplicação de recursos públicos. Ele comenta que a entrega da ordem de serviço foi agilizada por interesses políticos, já que aquele ano era de eleições municipais. Segundo ele, a ordem de serviço já havia sido assinada uma semana antes do ato simbólico realizado em São Miguel do Oeste e que a empresa vencedora da licitação já estava trabalhando antes mesmo dessa assinatura.
Defeitos graves
A pavimentação asfáltica na BR-282 apresentou vários defeitos graves, alguns notados até por pessoas leigas. A denúncia é do presidente da comissão binacional, Darci Zanotelli. De acordo com ele, há problemas como o acostamento estreito, que deveria ser de 2,5 metros de largura e foi feito com apenas 1,30 metros, por exemplo. Além disso, existe também baixa qualidade das valetas laterais, problemas nos pilares das três pontes e deficiência na sinalização, que foi feita com placas fora das medidas utilizadas como padrão em rodovias federais. “Parece uma rodovia vicinal um pouco melhorada”, afirma.
Se na região o comentário é sobre as falhas na pavimentação da obra, o Dnit, por meio da assessoria de imprensa, disse ao Jornal Folha do Oeste que o trecho da BR-282 está em boas condições de tráfego e de sinalização. Os usuários é que devem respeitar os limites de velocidade em cada local para evitar acidentes.
Solução
Para Zanotelli, os problemas na BR-282 devem ser consertados quando for feita a nova ponte internacional e a nova aduana em Paraíso. Ele adiantou que, assim que Brasil e Argentina definirem os detalhes, a comissão vai cobrar uma solução para os erros cometidos no asfaltamento da rodovia.
As Câmaras de Vereadores dos dois municípios diretamente beneficiados também estão reforçando o pedido de melhoria no trecho. Em São Miguel do Oeste, a vereadora Dete Fabiani apresentou, na noite de quinta-feira, dia 23, uma moção endereçada aos órgãos competentes, pedindo melhorias urgentes no local. Já o presidente do Legislativo de Paraíso, Ruben Paulo Giacomini, relatou que uma moção será votada na sessão da próxima quarta-feira, dia 29. “Em 2010, o Legislativo já havia pedido melhorias. Agora faremos um pedido com mais argumentos, contendo laudos de acidentes no local. É preciso uma mudança, pois os veículos em ambas as direções são projetados para fora da pista”, explicou Giacomini.
Os prefeitos dos dois municípios também deverão, nos próximos dias, definir uma estratégia para aumentar a pressão sobre este pedido.
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