Português em debate no Brasil
Educadores criticam distribuição e uso do livro Por uma Vida Melhor
Afinal, existe “certo” e “errado” quando o assunto é a linguagem? Uma discussão que tem causado muita polêmica em todo o Brasil. O assunto passou a ser discutido de maneira intensa após a distribuição do livro Por Uma Vida Melhor (Coleção Viver, Aprender), de Heloísa Ramos. Por meio do Programa Nacional do Livro Didático para a Educação de Jovens e Adultos, em maio, o MEC (Ministério da Educação) disponibilizou o material a 484.195 alunos de 4.236 escolas. Para os autores do livro, deve ser alterado o conceito de se falar certo ou errado para o que é adequado ou inadequado. Exemplo: “Posso falar ‘os livro’?’ Claro que pode, mas dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico” - diz um dos trechos da obra. Outras frases citadas e consideradas válidas são “nós pega o peixe” e “os menino pega o peixe”. Conteúdo como este citado, tem gerado muitas críticas dos educadores e descontentamento com a forma de ensinar.
Conforme representantes do Ministério da Educação, a norma culta da língua será sempre a exigida nas provas e avaliações, porém o livro estimula a formação de cidadãos que usem a língua com flexibilidade. O propósito também, segundo o MEC, é discutir o mito de que há apenas uma forma de se falar corretamente. Para a autora, o uso da língua popular, ainda que com seus erros gramaticais, é válido na tentativa de estabelecer comunicação. O livro lembra que, caso deixem de usar a norma culta, os alunos podem sofrer “preconceito linguístico”. Em nota divulgada pelo MEC, a autora defendeu que a ideia de correto e incorreto no uso da língua deve ser substituída pela ideia de uso da língua adequado e inadequado, dependendo da situação comunicativa.
O livro Por Uma Vida Melhor, centro de uma polêmica com relação ao ensino da língua portuguesa, foi assunto de muitos debates. A obra é dedicada à educação de jovens e adultos. “A autora fala para pessoas que perderam o bonde do ciclo educacional e que muitas vezes apresentam dificuldades no domínio da língua culta”, esclareceu o ministro de Educação Fernando Haddad. Ao falar aos parlamentares da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, o ministro afirmou nesta terça-feira, dia 31 de maio, que o livro usado em escolas públicas da educação de jovens e adultos não ensina a falar ou a escrever errado, conforme dizem críticos do material. Haddad explicou aos parlamentares que não há educador que não defenda o ensino da norma culta em qualquer etapa do ensino, mas que a abordagem para alcançar esse objetivo pode ser diversa.
Já o senador Paulo Bauer (PSDB-SC) propôs que o Ministério da Educação recolha o livro que cita ser “aceitável” o uso de frases sem concordância verbal. “Não podemos permitir que se ensine no Brasil a expressão ‘nóis pega peixe’. A língua é o patrimônio de uma nação. É a riqueza de um país. A língua portuguesa que nós devemos ensinar para as nossas crianças deve ser do ponto de vista da gramática”, afirmou. “No futuro, nós poderemos aceitar até que alguém cometa alguma incorreção ou adote algum tipo de regionalismo na expressão, na manifestação, mas é inadmissível começar ensinando pelo lado errado. Não podemos partir do errado para tentarmos chegar ao certo”, concluiu o senador, que também já exerceu o cargo de secretário de Estado da Educação de SC. Bauer entende que o ensino da língua deve começar do certo, sem dar nenhuma importância ao que se pratica de forma errada, mesmo que por força do hábito ou vício da linguagem.
Ao analisar a distribuição do livro, a professora com especialização em Língua Portuguesa/Produção de Textos, Mestrado e Doutorado em Linguística Aplicada, Maria Bernadete Mustifaga, não se manifesta nem a favor, nem contra, apenas não aconselha sua utilização. “Ele traz uma forma de linguagem popular para ser trabalhada na escola, e a polêmica é justamente essa, para a escola você vem para falar uma linguagem diferente, para aprender uma linguagem diferente, então o livro vem na contramão do que você espera da Educação. Os pais mandam os filhos para a escola, justamente para que eles sejam melhores. Trabalhado desta forma, o livro estaria prejudicando as crianças. A intenção da autora é mostrar a diferença, mas isso não significa que você vai aceitá-la dentro da sala de aula”, avalia a educadora.
Maria Bernadete cita que realmente as crianças falam desta forma (popular), porém, entre elas falarem assim fora da escola e dentro, é diferente. Conforme a professora, é preciso mostrar para os estudantes outras oportunidades e não só aquelas que eles já conhecem, senão, qual a diferença que faz a escola na vida das pessoas? “Uma coisa é você falar nós vai, outra coisa é você se apresentar no emprego dizendo nós vai. Temos uma diversidade da fala e uma única questão para escrita, que é a norma culta padrão. Na fala informal, no dia a dia das pessoas, essa linguagem é aceita. Porém, é uma linguagem que não serve para o ambiente de trabalho, palestra, comunicação ou ligação. Qualquer língua tem o padrão e o não padrão. Mas, o drama é que o livro aceita essa possibilidade. Não seria aconselhável a utilização deste livro, pela desvalorização da linguagem. Ele mostra que essa é uma forma da linguagem e o aluno pode adotar, e aí vai ter o primeiro prejuízo na busca de emprego, em um concurso de oratória, que vai cobrar linguagem padrão. Você pode mostrar para o aluno que tem essa possibilidade, e qual a possibilidade que tem valor social, para o trabalho”, destaca.
Para a educadora, o ensino tem importância fundamental na vida das pessoas, o que provoca uma necessidade cada vez maior de as pessoas melhorarem a comunicação. A escrita, hoje, está sendo muito mais utilizada por todas as pessoas do que era uma vez. No entanto, é possível observar que falta leitura e falta material de leitura nas escolas. Ensinar somente essa linguagem para as crianças significaria segregá-las. Programas como Soletrando não teria valor se adotasse essa linguagem”, explica Maria Bernadete. A diretora da E.E.F. Ludgero Wiggers, de Itapiranga, Scheila Marques Barboza, avalia a situação como um retrocesso para a educação. “É um verdadeiro absurdo, é preciso buscar meios para sanar as dificuldades já existentes e não criar novas”, aponta, ao avaliar sobre a utilização do livro Por Uma Vida Melhor. A assistente técnico-pedagógica da EEB Osní Medeiros Régis, de São José do Cedro, Rejane Spada, afirma que todos na escola são contra este livro didático. “Entendemos que a escola tem o compromisso de ensinar o aluno a escrever corretamente, mas devemos sempre respeitar as variantes linguísticas, no entanto é preciso sempre salientar que a norma culta prevalece sobre as variantes”, afirma a profissional.
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