Especialistas falam sobre o uso de agrotóxicos
Hoje, dia 11 de janeiro, é o Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos, data pensada nacionalmente para promover a conscientização acerca do uso indiscriminado deste tipo de produto, que pode causar problemas ao meio ambiente e a saúde humana.
De acordo com o professor do curso de Agronomia da Uceff de Itapiranga, Marciano Balbinot, o agrotóxico tem a denotação como produto de uso na agricultura, ou seja, nas atividades ligadas ao agronegócio. Dentro do contexto atual de produção agrícola, segundo ele, a sua utilização é uma ferramenta indispensável, pois faz parte de um pacote tecnológico que auxilia significativamente no aumento da produtividade, e consequentemente, maior oferta de alimentos com valores mais acessíveis ao consumidor. "Portanto, não é possível no momento excluir os agrotóxicos do meio agrícola, como também, não se deve dispensar todos os cuidados e recomendações a respeito do assunto", informa.
Conforme o entomólogo e professor no curso Técnico em Agronegócios que passará a atuar na unidade do IFSC de SMOeste neste ano, Odimar Zanuzo Zanardi, os problemas concomitantes aos agrotóxicos estão relacionados ao seu uso indiscriminado e fora das recomendações técnicas fornecidas por especialistas. O professor elenca alguns problemas frequentes, um deles é a contaminação, que pode ser ambiental, nos aplicadores ou nos alimentos produzidos.
O professor Zanardi explica que o uso de forma errônea também pode ocasionar a seleção de população resistente ao defensivo agrícola, no qual o mesmo produto que controlava uma praga perde sua eficácia em alguns anos, pela sobrevivência e reprodução de insetos que carregam genes que expressam a resistência ao ingrediente ativo. Então, quando o agricultor verifica isso, aumenta a concentração do produto, e aí se crescem os riscos de contaminação do ambiente e de resíduos nos cultivos.
Outros problemas podem ser a ressurgência de pragas e os surtos de pragas secundárias. Nesses casos, as pragas estavam em baixos níveis populacionais e, com o uso inadequado de inseticidas e a mortalidade de seus inimigos naturais, há o crescimento na população do inseto que, por diversas vezes, precisam ser controladas também. Um exemplo muito frequente atualmente é os surtos de ácaros fitófagos em plantações de soja, como informa Zanardi.
O professor explica que com o uso de inseticidas dentro das recomendações técnicas mencionadas pelos fabricantes e especialistas da área, o impacto sobre o meio ambiente, contaminação de alimentos e de pessoas são minimizados. Para o professor Balbinot, as análises de contaminação em alimentos são muito variáveis, e portanto é difícil pontuar quais exatamente são os mais afetados pelo uso de defensivos.
Segundo Zanardi, geralmente os maiores níveis de contaminação por agrotóxicos são observados em hortaliças e frutas, também chamadas de 'minor crops', devido à baixa disponibilidade de tipos de defensivos agrícolas registrados para esse tipo de plantação, o que faz com que alguns produtores utilizem agrotóxicos voltados para outras culturas, o que aumenta a possibilidade de haver maior contaminação. Entre as hortaliças mais afetadas, como explica o especialista, incluem batata, tomate, pimentões, morango, alfaces, entre outros. "Isso não quer dizer que as outras culturas estão isentas, mas em termos de números e de casos de contaminação mais frequentes, estas têm sido as principais", afirma.
Quando estes produtos são registrados junto ao Ministério da Agricultura, Ministério da Saúde, Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e Ministério do Meio Ambiente, há menos chances de haver problemas. Entretanto, pessoas que tem contato à grandes quantidades de agrotóxicos podem apresentar sintomas de contaminação. Conforme Marciano Balbinot, uma das principais medidas de segurança contra intoxicações é o EPI (Equipamento de Proteção Individual), para os aplicadores. Muitas vezes estes trabalhadores ignoram o uso, ou utilizam EPIs que já não mais possui as condições apropriadas de proteção. "Além de ser obrigatório por Lei, o bom senso recomenda o EPI como método auxiliar na preservação da saúde pela diminuição do risco inerente a esta atividade. Trata-se de um dispositivo destinado a preservar e proteger a integridade física do indivíduo", afirma o professor.
Balbinot comenta ainda que quando não seguido os aspectos de segurança podem ocorrer intoxicações nos seres humanos causando doenças agudas e crônicas, como má formação fetal, dor de cabeça, diarreia, vômitos, desmaios, náuseas, problemas de rim, doenças de pele, irritação ocular e auditiva, depressão, lesão neurológica, câncer, neurite da coluna neurológica cervical, problemas hormonais, neurológicos e reprodutivos. "São muitos problemas de saúde de efeito reprodutivo, imunológico, teratogênicos, neurológicos, genotóxicos e carcinogênicos. Já no ambiente pode ocorrer contaminação do solo, da água e do ar", confirma.
O professor relembra que desde o surgimento dos agrotóxicos, muito se avançou em relação aos mesmos, de forma a reduzir o grau de periculosidade. No entanto, por se tratar de produtos químicos, é indispensável obedecer todas as práticas de proteção para evitar consequências indesejadas. "Paralelamente, muitas tecnologias estão sendo trabalhadas fortemente em substituição ou diminuição do uso de agrotóxicos, acenando para um futuro mais sustentável na produção agrícola", diz.
O entomólogo Zanardi elenca algumas ações que podem reduzir a demanda de agrotóxicos nas culturas. Há, por exemplo, a implantação de um programa de manejo integrado de pragas, que envolve o uso de outros métodos de controle além do químico, utilizando outras ferramentas, como biopesticidas, agentes de controle biológico (fungos entomopatogênicos, bactérias, vírus) e parasitoides, predadores que controlam diversas pragas de importância agrícola.
No cultivo de frutíferas, algumas espécies de insetos-praga podem ser controladas por meio da técnica de interrupção do acasalamento, que confundem os machos para evitar que encontrem as fêmeas e se reproduzam. O professor também menciona que fazer o plantio ou a semeadura da cultura na época em que a praga não está presente, ou em baixa densidade populacional, pode reduzir a quantidade de inseticidas a ser utilizado.
Há ainda a possibilidade de uso do controle físico, como por exemplo na produção de arroz inundado, onde o ajustar a altura da lâmina d'água reduz a quantidade de larvas do gorgulho-aquático que podem vir a danificar as raízes da cultura. Todas essas alternativas, de acordo com Zanardi, podem diminuir a população das pragas a níveis que não causam prejuízos econômicos aos produtores, sem contaminar o solo, o ar e seres vivos.
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