Até quando teremos água potável?
Falta de saneamento adequado continua sendo um problema para o Brasil e a consequência é a contaminação de mananciais que recebem diariamente o esgoto doméstico, comprometendo a qualidade da água
Todos nós sabemos que a água é essencial para o desenvolvimento da vida. Animais e plantas são completamente dependentes desse elemento que não tem cor, sabor ou cheiro. No corpo humano, a água é um dos componentes indispensáveis para o bom funcionamento do organismo.
Na natureza, a água é encontrada em abundância, já que três quartos de todo o planeta Terra são cobertos pelos mares. Contudo, apenas cerca de 2,5% dessa água é doce, ou propícia para o consumo. Esse percentual reduzido de água doce teoricamente é o que resta para ser dividido para sete bilhões de pessoas em todo o mundo - cifra que será alcançada na próxima segunda-feira, dia 31, segundo estimativa do Fundo de População das Nações Unidas.
Para agravar ainda mais essa situação, desse pequeno percentual de água doce disponível (2,5%), uma grande parcela está poluída, o que acaba diminuindo as reservas. De acordo com relatórios da ONU (Organização das Nações Unidas), até 2050, aproximadamente 45% da população não terá a quantidade mínima de água necessária.
No mundo subdesenvolvido, cerca de 50% da população consome água poluída; em todo o planeta, mais de dois milhões de pessoas morrem em decorrência do contato com água contaminada e não tratada. Segundo estimativas da ONU, existem atualmente mais de um bilhão de pessoas que praticamente não têm acesso à água potável.
No Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2009, apenas 62,6% dos domicílios urbanos brasileiros tinham acesso à rede de água, ao esgoto e à coleta de lixo. Já em Santa Catarina, conforme pesquisa de 2008 realizada pela Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária), apenas 12% da população urbana tinha saneamento adequado.
A água contaminada é responsável por trazer inúmeras complicações para a saúde. De acordo com o clínico geral Alexandre Spessatto, o consumo de água sem tratamento adequado pode causar doenças como verminoses, diarreias, vômitos, dentre outras. “Essas doenças são decorrência do não tratamento correto da água, e pessoas que não têm água encanada tratada de qualidade é que sofrem com isso. Em geral, essas doenças ocorrem de forma mais intensa em crianças do que adultos”, aponta o especialista.
Conforme explica Spessatto, medidas básicas de saneamento estão de certa forma atreladas à medicina preventiva. “A medicina preventiva é muito melhor que a curativa, pois faz um trabalho para evitar doenças, e essa ideia de saneamento básico está bem relacionada a isso, já que água de qualidade evita doenças e contaminações”.
A poluição é um dos maiores problemas da pouca água potável que existe.
Diariamente, nascentes de todo o mundo recebem milhares de toneladas de diversos tipos de resíduos. Dentro desta estatística estão incluídos vários rios da região extremo oeste catarinense, e um deles é o Rio Guamerim, que retém fortes índices de poluentes em São Miguel do Oeste. O Guamerim deságua no Rio Macaco Branco, que abastece algumas cidades dentre elas o município de Descanso.
O descaso com o Guamerim é algo que perdura há anos. O rio recebe inúmeras descargas de esgoto doméstico todos os dias e, se não bastasse, muitos resíduos sólidos são jogados em seu leito.
Monitoramento - todos devem fazer sua parte
Mas afinal, você alguma vez parou para pensar qual o destino do seu esgoto doméstico e quais consequências isso pode trazer para sua vida? Inúmeras ações podem ser realizadas para diminuir o impacto da contaminação da água, tratar o esgoto de forma adequada é uma delas, contudo são necessárias algumas medidas, dentre elas a mobilização e conscientização da sociedade.
Conscientes do tratamento adequado que o esgoto doméstico deve ter, moradores do condomínio Le Classic, no centro de São Miguel do Oeste, não abrem mão de verificar e monitorar os coliformes fecais dentre outros resíduos da fossa antes de serem despejados na rede coletora. De acordo com o síndico do condomínio, José Tavares Bastos, essa iniciativa é uma atitude conjunta de todos os moradores do prédio, cujo último monitoramento foi realizado há cerca de um mês.
“É importante que toda a população faça sua parte também, nós estamos fazendo a nossa e vamos continuar realizando isso porque a gente sabe que não é só uma vez que esse trabalho deve ser feito, esperamos que os prédios que não estão fazendo a análise, que façam, porque o mais importante disso é a ação ambiental, pois poluir o rio agora gera consequências. É muito importante toda a população botar isso na consciência e contribuir também”, destaca.
Conforme a engenheira ambiental Karine Posser, é importante que seja feito o monitoramento nos condomínios, pois há uma carga bastante significativa oriunda dos despejos domésticos. “O monitoramento vem para auxiliar no controle da eficiência do tratamento aplicado, além de impedir a contaminação de cursos d’água, e principalmente a contribuição com o bem-estar e a saúde da população”, destaca.
A engenheira ressalva que existe uma Instrução Normativa da Fatma (Fundação do Meio Abiente) que determina a realização de um plano de monitoramento ambiental para os condomínios verticais, onde deve ser abordado quais controles ambientais serão efetuados no empreendimento. “No caso dos condomínios verticais, temos duas situações básicas para levar em conta: os resíduos sólidos e a geração de efluentes”, acrescenta.
Ainda há a Resolução n°357/2005 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), alterada pela Resolução deste mesmo Conselho n°430/2011, que determina o padrão de lançamento de efluentes.
A realização desse monitoramento, conforme Karine, é importante uma vez que se contribui para a saúde pública de forma mais eficaz e também se colabora com o meio ambiente. “O monitoramento sempre que possível deve ser realizado seis meses após o início das atividades do sistema de tratamento adotado é uma coleta 12 meses após o início das atividades”, explica.
A situação dos condomínios em São Miguel do Oeste merece atenção, uma vez que há uma rede coletora de esgoto que perfaz um total de aproximadamente 6.900 metros, onde alguns dos condomínios instalados na área central têm o esgoto, depois de tratado, ligado a esta rede.
Contudo, em outros já ocorre o despejo na rede de águas pluviais, o que leva até o curso hídrico do Guamerim. “Ainda cabe mensurar que muitas residências possuem ligações diretas no Rio Guamerim sem nenhum tipo de tratamento ou com tratamento que apresenta pouca ou nenhuma eficiência”, reforça a engenheira.
Projetos de esgoto e de água
São Miguel do Oeste é um dos municípios brasileiros que têm projetos de sistema de esgotamento sanitário e de abastecimento de água pré-selecionados pelo Ministério da Saúde - Funasa (Fundação Nacional de Saúde), por meio do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento).
Com isso, o Governo Municipal pode receber mais de R$ 61 milhões para serem investidos em saneamento. São R$ 34 milhões para o projeto de esgotamento sanitário, elaborado pela engenheira ambiental Karine Posser, e mais R$ 26 milhões para o projeto de abastecimento de água, elaborado pela equipe da Casan.
O prefeito Nelson Foss da Silva destaca que o esgotamento sanitário é um projeto amplo que deverá atender cerca de 70% da cidade.
Mais de R$ 50 bilhões para o saneamento
O Ministério das Cidades, de acordo com o chefe de gabinete, Leodegar Ticoski, dispõe de mais de R$ 50 bilhões para investimento em saneamento básico. Contudo, mesmo com essa quantidade de recursos, mais de metade da população brasileira permanece sem coleta de esgoto.
No entanto, para a obtenção desses valores existem alguns entraves como a falta de projetos adequados, medida fundamental para se conseguir os recursos. Além disso, é importante encontrar meios de fiscalização para que esses valores não sejam desviados.
Falta de saneamento faz com que o Rio Guamerim seja o destino do esgoto de boa parte da população de SMOeste
Síndico Bastos e a engenheira ambiental Karine
Além do esgoto, resíduos sólidos também se acumulam no Guamerim
Pessoas lavam roupas nas águas do Guamerim
Brinquedo foi descartado às margens do Guamerim
Imprudência: carcaça de animal foi jogada dentro do Guamerim
Mais sobre:









Deixe seu comentário