É difícil imaginar, mas pais, padrastos e até mesmo avós estão entre a maioria das pessoas acusadas de cometer abusos contra as crianças e adolescente no Extremo Oeste, fato e incidência que vêm preocupando autoridades na região. Não existem números oficiais, mas, conforme a delegada Joelma Stang, o abuso sexual, a pedofilia e a prostituição infantil preocupam, havendo uma sucessão grande de casos e com registros frequentes, além dos muitos casos que são mantidos em sigilo, muitas vezes pela própria família. A situação dos pequenos é alarmante, sendo a denúncia e a preven
Pedofilia e abuso sexual: Incidência desses crimes na região tem preocupado autoridades, que estão ampliando investigações e buscando maior apoio psicológico para as vítimas
De todos os crimes que existem, não há um que revolte mais do que aquele cometido contra crianças, por vários motivos. Os pequeninos são indefesos e ensejam o sentimento natural de proteção, representam a vida rumo ao futuro, não possuindo discernimento para distinguir o perigo e demonstrando uma infinita capacidade de confiar nos adultos. E, apesar disso, há pessoas, criminosos, doentes e pervertidos que se aproveitam justamente dessa fragilidade inocente para praticar abusos contra as crianças.
Na região Extremo Oeste, a incidência de casos de pedofilia e abuso sexual contra crianças e adolescente tem preocupado as autoridades. Segundo a delegada da DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, ao Idoso e à Mulher) de São Miguel do Oeste, Joelma Stang, em toda a região, o abuso sexual, a pedofilia e a prostituição infantil preocupam, havendo grande incidência de casos e com registros frequentes. “Os números que chegam aos nossos registros não revelam todos os casos que existem. Sabemos que há muitos casos que ocorrem e as pessoas não revelam, não informam o fato e até mesmo negam a ocorrência dessa situação, quando na verdade existe muito mais do que temos em registros, inquéritos, boletins de ocorrências ou processos”, lamenta a delegada.
A delegada explica que não é possível repassar números exatos das ocorrências desses crimes na região, principalmente porque em muitos deles não existe o registro oficial, mas as vítimas dessas violências são diversificadas. “A idade das vítimas varia muito, desde crianças até 12 anos e adolescentes, no entanto a incidência maior é com crianças mesmo, e na maioria das vezes com meninas, apesar de que muitos meninos também são vítimas. São casos de estupro, de pornografia, de aliciamento”, destaca.
Joelma também cita a grande ocorrência de crimes virtuais envolvendo menores. São casos de pornografia, com material fotográfico e em vídeos. “Não temos registros de comercialização de produtos de pornografia envolvendo crianças aqui da região, mas sabemos que existem, principalmente pelo meio virtual. Nesses casos se estabelece um contato com as crianças pela internet e essa é a parte mais difícil da investigação, porque, quando é virtual, normalmente esse abusador ou agressor não se identifica, muitas vezes se passando por adolescentes e até por mulheres, fazendo com que o caso seja mais perigoso e mais difícil de solucionar”, enfatiza a delegada.
Sobre a prostituição infanto-juvenil, ela ressalta que existem investigações nesse sentido na região, inclusive com registros, e em sua maioria envolvendo adolescentes. “Estamos com uma investigação ocorrendo e já temos fatos até comprovados, já que existem mesmo esses casos de prostituição. Sempre fizemos operações de rotina, mas é muito difícil pegar alguém na hora, em flagrante, quando fiscalizamos identidades e essas coisas. Esse trabalho tem que ser mais paralelo mesmo, com informações que vamos levantando”, menciona.
“Os números que chegam aos nossos registros não revelam todos os casos que existem. Sabemos que há muitos casos que ocorrem e as pessoas não revelam"
No caso da Polícia Civil, a delegada explica que sempre que é feito o registro de um tipo de abuso contra a criança, é feita a investigação para tentar elucidar os casos. “Investigamos para saber o que está acontecendo, como está acontecendo, quem está praticando essa violência e para punir; sendo que levantamos os elementos para dar base ao Ministério Público para oferecer a denúncia crime. Sempre trabalhamos na investigação para tentar levantar o máximo possível dos fatos que estão ocorrendo, provas desses fatos”, enfatiza.
Já sobre os criminosos, conforme a delegada, na maioria das vezes o abusador é da própria família. “Na maioria dos casos, se for traçado um perfil desse abusador, normalmente é uma pessoa ligada à família – um pai, um padrasto, um tio ou um primo. Quase sempre é uma pessoa da família mesmo e por isso é um crime que não ocorre de uma hora para outra. O abusador investe várias vezes, ele prepara, se aproxima dessa vítima em várias situações, não é numa vez só e por isso que fica bem velado esse tipo de crime, porque ele prepara muito bem o terreno”, enaltece. Nos crimes dentro da família, Joelma explica que a violência, em muitos casos, ocorre várias vezes e envolve de forma tal a vítima, que ela tem medo de denunciar.
A violência contra crianças e adolescente pode acontecer em todas as classes sociais, e, segundo a delegada, as pessoas com condições de vida menos favorecidas são vítimas em maior potencial. “Chega ao nosso conhecimento mais esse tipo de crime, porque normalmente quando envolve maior precariedade de estrutura e de condições de vida, o Conselho Tutelar é chamado para prestar atendimento e ali começam a aparecer outras situações, e quando os conselheiros vão ver por que aquela criança está passando fome ou por que é mal cuidada, aí começam a aparecer outros crimes. O Conselho Tutelar atua fortemente nesse sentido e também é fonte de informação para nós. Quando recebemos denúncias, também recorremos ao Conselho, onde unimos as informações para tentar ampliar as investigações”, reforça Joelma.
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Para elucidar os crimes, o Conselho Tutelar, a Polícia Civil, o Ministério Público e o Poder Judiciário precisam do apoio de psicólogos, assistentes sociais e pedagogos para conversar com as vítimas. “O crime sexual ocorre normalmente quando estão a vítima e o abusador, e a palavra da vítima tem muito peso nesses casos, onde a investigação policial conta com o trabalho de psicólogos e assistentes sociais, sendo que a partir desses laudos psicológicos vai sendo elucidado o caso, e através de cada consulta é possível colaborar com as investigações. Muitas vezes, a vítima não fala claramente, mas, a partir do momento que vai adquirindo confiança, ela fala e pode-se comprovar se foi aquele abusador que cometeu o crime, para poder assim haver punição. O depoimento da vítima é fundamental e para isso é preciso o trabalho destes outros profissionais”, assegura a delegada da DPCAMI.
Na maioria das vezes, as dificuldades demandam do medo da família em falar. “A família até percebe o que está acontecendo, mas tem medo e até mesmo vergonha de falar. É uma proteção da própria família, porque ela sabe que o agressor vai ser punido e então opta por deixar a criança sofrer para evitar que um adulto seja preso, sendo que muitas vezes esse agressor é o que sustenta a família e vai haver um desequilíbrio, uma desestruturação. É por isso que precisamos de um trabalho psicológico e de assistência também de toda a família, não só para com a vítima”, garante.
Hoje, a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, de acordo com a delegada, não conta com esses profissionais e assim precisa encaminhar os casos. “Estamos em uma batalha para que o Estado ou o Município nos forneça esses profissionais, para que eu, assim que a família chegar à delegacia, já possa fazer o primeiro atendimento, até mesmo dando embasamento aos policiais na atuação”, lamenta.
Crimes com consequências para toda a vida
As vítimas então, tanto as atendidas na DPCAMI, no Conselho Tutelar e outros órgãos, são encaminhadas ao CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social de São Miguel do Oeste), onde é feito o acompanhamento das vítimas e da família, além da elaboração dos laudos psicológicos. De acordo com Joelma, o acompanhamento é feito semanalmente, na maioria das vezes, mas existem casos de crianças que são avaliadas por meses e não falam sobre o assunto. “Nos casos de violência sexual, em uma situação agressiva mesmo, essas vítimas têm dificuldades por toda a vida, e por isso é fundamental esse acompanhamento psicológico, para que se deixe o menos possível de marcas para essas vítimas. No nosso atendimento inicial já temos o cuidado até na abordagem”, salienta a delegada.
As profissionais do CREAS, a pedagoga Noili Dal Mago, a psicóloga Simone Cetolin e a assistente social Greici Farias explicam que o trabalho realizado no Centro são interdisciplinares, onde são avaliadas diversas situações: da escola, familiar, emocionais, de comportamento e relacionamento. Para tanto, o atendimento varia para cada caso, já que são atendidas crianças e adolescentes vítimas de diversos tipos de violência – psicológica, física, negligencia abuso e outros, haja vista que esses crimes podem influenciar na aprendizagem e em diversas outras áreas.
“Se a vítima, não quiser falar, ela não vai falar. E esses momentos de silêncio devem ser respeitados, é preciso que se proteja esse indivíduo, muitas vezes fragilizado"
De acordo com as profissionais, o atendimento de cada caso encaminhado é diferente, pois há necessidade de se avaliar de que forma a vítima ou suposta vítima se encontra: se está acompanhada do Conselho Tutelar, se já foi retirada de casa, se houve confirmação do abuso ou se o encaminhamento será no sentido de traçar um diagnóstico dos fatos. “Avaliamos a necessidade desse atendimento, de como podemos proceder, se será atendido algum familiar também e se essa vítima está em condições de receber esse atendimento agora. A diferença no nosso trabalho é que cada caso é muito especifico, não podemos estabelecer um padrão rígido de atendimento. Por vezes um protocolo de atendimento preparado não irá ser adequado ao momento da vítima, que deve ser respeitada. Nosso desafio é constante, mas nosso foco principal é preservar a vítima”, enfatiza a psicóloga.
A pedagoga Noili ressalta a importância da escola e dos professores no processo de identificação dos problemas dessa criança. “Muitas vezes, a criança fala com quem ela tem confiança, com quem se aproxima mais, podendo se abrir até com um supervisor ou orientadora de uma escola, que então procurou o atendimento especializado do Creas”, ressalta a profissional.
De acordo com a equipe do CREAS, o tipo de atendimento também varia de acordo com a forma do encaminhamento. “Se a vítima, não quiser falar, ela não vai falar. E esses momentos de silêncio devem ser respeitados, é preciso que se proteja esse indivíduo, muitas vezes fragilizado, entendendo que assuntos tão íntimos são angustiantes, ainda mais para se tratar com pessoas que não são do seu círculo de convivência”, explica Simone.
COMO EVITAR
De acordo com a delegada Joelma, é fundamental o cuidado com as crianças e com os sinais de possíveis abusos de que ela esteja sendo vítima. “É importante ficar atento, até mesmo na escola. Tomar cuidado com alguns sintomas que ela vem manifestando e principalmente com o que essa criança quer falar e muitas vezes não consegue. Buscar informações se houver desconfiança e realmente fiscalizar, como nos casos de pedofilia pela internet. Sabemos que deve existir a intimidade, a liberdade e privacidade, mas é preciso saber com quem os filhos se relacionam, o que estão fazendo pelo meio virtual e ter controle sobre suas atividades, por que é aí que se percebe onde o seu filho está correndo riscos.
A denúncia também é muito importante, seja por vizinhos ou familiares, no intuito de se investigar os crimes que porventura essa criança esteja sofrendo e solucionar esse caso. De acordo com as profissionais do CREAS, além da denúncia, procurar ajuda também é importante, porque existe uma rede de proteção para a família e que fiquem atentas aos sinais de problemas dessas crianças, da estrutura emocional dela. “Esse tipo de situação pode gerar problemas sérios, como o sofrimento mental da vítima e de seus familiares, sentimentos de culpa, depressão, revolta, dificuldades de relacionamento e de constituição de vínculos posteriores. Os atendimentos, nestes casos, são feitos em longo prazo, custosos para a vítima, para os profissionais e para a própria municipalidade. Por isso ressaltamos a necessidade do investimento e reconhecimento da importância da prevenção à ocorrência desses casos”, enfatiza a psicóloga.
Segundo as especialistas do CREAS, as ocorrências de abuso sexual na região é uma questão muito preocupante, mas o que mais preocupa são os casos que não chegam ao Centro e que não são investigados. “Isso é mais preocupante do que aquilo que a gente está atendendo, porque nesses casos temos resultados, superação e está havendo um apoio. Agora, aquele que não chega até nós é preocupante, e é muito importante ficar atento, principalmente os professores, já que eles podem prestar um primeiro atendimento”, explica a pedagoga Noili.
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