Somente a Educação pode salvar a indústria

Somente a Educação pode salvar a indústria
Liange Gattermann

É preciso investir mais em Educação, para aumentar a produtividade e garantir a competitividade industrial no mercado global

O extremo oeste até integra o estado em que os indicadores de Educação são os melhores do país, mas o problema é que a posição do Brasil no ranking mundial do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) 2012 é uma das últimas, 58ª. Isso prova que é preciso investir mais em Educação, para aumentar a produtividade e garantir a competitividade industrial no mercado global

O extremo oeste catarinense, cuja história de colonização remonta ao fenômeno migratório do povo gaúcho registrado mais intensamente na primeira metade do século XX, experimentou primeiro o desenvolvimento industrial a partir da exploração madeireira. O impulso, contudo, veio com a transação entre o modelo agrícola de subsistência e o sistema comercial. O processamento agroindustrial, ao mesmo tempo, criou um cenário fértil para outros setores como o metal-mecânico e mais recentemente a robótica.

Dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) apontavam que, em 2012, nos vinte municípios abrangidos pela vice-presidência Regional Extremo Oeste da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), 43% da população trabalhavam na indústria, o que equivale a 15.751 de um total de 172.250 habitantes. O número representa certo equilíbrio entre a oferta e a demanda. O desafio dos industriários, na verdade, é estimular esses colaboradores a produzirem mais, com maior qualidade, menos custo e em tempo menor.

O mantra, disseminado pelo americano Henry Ford justamente quando eram fixados os primeiros alicerces na região que permite ao Estado fazer fronteira com a Argentina, agora deixou de ser uma opção para o desenvolvimento e se tornou uma questão de sobrevivência em meio à concorrência nacional e global. Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostrou que a produtividade brasileira está estagnada há três décadas.

O problema maior é que o trabalhador brasileiro, em média, produz um quinto da riqueza gerada pelo americano, perto de 22 mil dólares por ano contra de 100 mil dólares. Os alemães, mesmo com jornada laboral menor, produzem quatro vezes mais que os brasileiros. A raiz dessa disparidade estaria na escolaridade, que chega a ser quase a metade no Brasil, segundo explica o diretor do Sesi (Serviço Social da Indústria) Chapecó, Claudemir Bonatto. “Para não amargar mais resultados negativos, a nossa saída é apostar na Educação”, observa.

Prova dessa necessidade é que, mesmo sem figurar entre as piores estatísticas nacionais, o extremo oeste ainda tem muito a evoluir no campo educacional. Em São José do Cedro, que concentra 49% de seus trabalhadores na atividade industrial, 70% não concluíram a Educação Básica. “Somos uma nação naturalmente rica, mas com um povo que cresceu sem acesso à Educação. Estamos cerca de cinquenta anos atrasados na competição pelo desenvolvimento. Nações que enfrentaram adversidades, como a Alemanha, o Japão e a Coréia do Sul, perceberam logo onde investir para chegar ao status de potência mundial. Não vejo outro caminho a não ser a Educação”, pontua o vice-presidente Regional da Fiesc, Astor Kist.

PRIMEIROS PASSOS

São Miguel do Oeste, considerado polo regional, já vivencia uma situação um tanto melhor, mas não aceitável. Na cidade, 56% dos 4.462 trabalhadores industriais tem a Educação Básica completa ou mais. Todavia, 44% ainda precisam dessa condição para poder acessar cursos técnicos e investir na formação continuada. “Esse é o nosso grande gargalo porque limita a formação continuada, essencial para estimular o trabalhador a ter novas ideias, a sair da zona de conforto, a produzir mais e ajudar a empresa a se tornar mais competitiva”, aponta o diretor do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), Ivanor Finato.

Aos poucos o cenário está mudando. A indústria está de portas abertas. Por meio de ações desencadeadas de maneira mais intensiva pelo movimento ‘A indústria pela Educação’, trabalhadores, como o vendedor orçamentista da Torfresma Industrial de São Miguel do Oeste, Fábio de Souza, voltaram para a sala de aula a fim de concluir a Educação Básica. “Se eu tenho a capacidade de fazer tantas outras coisas, eu tenho a capacidade de concluir o Ensino Médio, e confesso que quando eu comecei a estudar, a conhecer novas pessoas, passei a sentir vontade de fazer um curso superior. É algo pessoal, mas que também agrega para o crescimento profissional”, destaca, lembrando que aos 16 anos, quando começou a trabalhar na empresa, não pensava da mesma maneira. “Se eu tivesse tido a possibilidade de somar a prática com a teoria, provavelmente as dificuldades teriam sido menores”, concorda.

Justamente para facilitar a resolução das situações-problema vivenciadas na linha produção, gestão e comercialização, é que a indústria, com mais de vinte anos no mercado, aposta na qualificação de seus colaboradores por meio da Educação. Segundo a analista de Recursos Humanos, Graciele Draczevski Camini, além dos cursos desenvolvidos em parceria com instituições como o Sesi e o Senai, há outros técnicos subsidiados que incentivam o trabalhador a se aperfeiçoar constantemente. Embora a empresa não tenha um índice concreto do impacto na produtividade a partir do investimento em Educação, assim como não há dados em toda a região, percebe-se que “essa iniciativa tem melhorado muito a produtividade porque desperta o interesse do colaborador, que também se sente valorizado, ao poder sugerir novos métodos de rendimento à empresa”, avalia Graciele.

Na opinião da analista de RH, qualificar a mão de obra para cumprir com a missão da indústria é um dos aspectos que permite a competição nos mercados nacional e internacional. Especializada na produção de máquinas e equipamentos para frigoríficos, bem como no segmento de robótica e automação, a Torfresma Industrial exporta seus produtos para países como Venezuela, Argentina, Chile e Emirados Árabes. Por isso que, mesmo perto de concluir a graduação, Cristiane Lorenzini, que entrou para o quadro funcional da empresa há mais de sete anos, não abre mão da formação continuada. “Todo curso que é o oferecido agrega ao ambiente de trabalho e ainda tem reflexo no bem-estar social”, comenta.

DESAFIOS PARA COMPETIR

É fato. O mercado precisa cada vez mais de pessoas inteligentes, criativas e dispostas. Há um tempo atrás, quem não tinha qualificação ia para o chão de fábrica. Hoje a realidade é outra. Essas funções repetitivas, insalubres e perigosas estão sendo substituídas pela automação. Mas, em contrapartida, tem muito espaço para trabalhos que exigem dinamismo. “É o que chamamos de 4ª Revolução Industrial, que faz a interligação cyber-físico. Para participar dela o trabalhador tem que estar preparado. Ele precisa entender os comandos numéricos, programar e fazer a manutenção das máquinas. Esse é o nicho de mercado que está surgindo e o trabalho braçal está se esvaindo”, opina o diretor do Senai São Miguel do Oeste, Ivanor Finato.

“Temos um longo caminho até todos os trabalhadores concluírem a Educação Básica, poderem buscar a formação continuada e atenderem a demanda do mercado industrial, mas essa é a nossa missão”, diz o diretor do Sesi Chapecó, Claudemir Bonatto, que tem o objetivo de matricular 28 mil alunos nas turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) e 11mil no Grande Oeste, em turmas de Educação Continuada. “É certo que esse preparo reflete na linha de produção, já que o trabalhador cumpre as normas, inclusive de segurança, é mais ágil para produzir e pensar em soluções criativas”, ressalta.

Mais do que promover o acesso à Educação, porém, é necessário investir na qualidade. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgado no início deste mês, mostra que as escolas brasileiras pecaram. Por dois décimos não atingiram a meta de 4,4 pontos nos anos finais do Ensino Fundamental para 2013. No Ensino Médio, o país repetiu o índice de 2011 (3,7), que também ficou abaixo da meta de 3,9. Nas escolas públicas de São Miguel do Oeste, que atendem a maior parte dos alunos, a meta era chegar aos 5,2 pontos, mas nos anos finais do Ensino Fundamental só foram conquistados 4,0.

De acordo com especialista em Anos Iniciais, Orientação e Supervisão da Secretaria de Educação de São Miguel do Oeste, Terezinha Osmari Bagatini, a metodologia de ensino já adotada nos anos iniciais do Ensino Fundamental, que na rede pública municipal superou a meta 5,7 e atingiu 6,3 pontos, pensa no aluno enquanto sujeito que interage na sociedade. “Agora, é preciso avançar em relação à qualidade da Educação nos anos finais do Ensino Fundamental. A forma de ensinar precisa ser repensada para que esses alunos também saibam lidar com a problematização, saibam refletir, contextualizar, interpretar”, compreende, ao reforçar que inegavelmente a formação dada ao sujeito na escola refletirá no seu desempenho enquanto ator da vida social. “A mudança de didática não é fácil e dá trabalho, mas é a estratégia a ser projetada para provocar o aluno a pensar, a interagir na sociedade como um sujeito de senso crítico, capaz de melhorar o ambiente onde vive”, conclui a educadora.

 

Liange Gattermann/Folha do Oeste

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