Qualquer sinal de vento um pouco mais forte ou uma nuvem mais escura no céu gera desconfiança entre os moradores de Guaraciaba. Depois do tornado de escala F4, com ventos entre 330 e 420km/h, registrados na noite de 7 de setembro de 2009, é difícil não se preocupar. “Foi feio. O tempo fechou de uma hora para outra. Foi tudo muito rápido. Ouvimos barulho muito forte e quando vimos já estávamos molhados”, conta a moradora da linha Guataparema, Graucília Batista do Carmo, que viu a casa ser destruída pela força do vento em questão de segundos.
Pessoas como a dona de casa Graucília sabem bem o que enfrentam. Agora, os moradores de Xanxerê e Ponte Serrada, na tarde da última segunda-feira, dia 20, viram vidas e bens materiais serem levados por dois tornados de classificação F2, cujos ventos oscilam de 180 a 250 km/h. Por isso, recomenda-se força e união para reconstruir. “Em pouco tempo conseguimos reconstruir com a ajuda de amigos”, observa, ao enfatizar a importância da solidariedade para superar a situação.
Uma dessas pessoas solidárias foi a empregada doméstica Dominga Dime. Sem ter a casa atingida pela intempérie, ela e o marido logo se uniram aos voluntários para ajudar aqueles que perderam móveis, eletrodomésticos, roupas, materiais que representavam todo o esforço feito durante a vida. “Era uma coisa muito triste de se ver. Mas a gente precisou se unir e ajudar quem precisava, com roupa, comida, coisas de casa, com dinheiro e com o nosso trabalho”, lembra a moradora, que vive há cerca de trinta anos em Guaraciaba.
A reconstrução levou um bom tempo. Há traumas que ainda não puderam ser superados. Outros aspectos jamais voltarão a ser como antes. Mas, em meio a um novo rastro de destruição e às considerações de que a região é o segundo maior corredor de tornados do mundo - um estudo do IFSC mapeou 77 tornados só entre 1976 e2009 - é inevitável questionar: será que agora, depois da triste experiência vivida há seis anos, a população está prevenida?
O coordenador da Defesa Civil, Artêmio Barth, admite que não. “Nem o Estado estava preparado para essa intempérie porque o radar meteorológico não estava funcionando. Então, imagine um município de 10 mil habitantes com uma estrutura financeira bem enxuta! Nós não temos condições de implantar um sistema de alerta”, lamenta.
Por outro lado, ele enfatiza que várias medidas ao alcance do município foram adotadas. “A maioria das construções, hoje, estão sendo feitas mais reforçadas, com laje, em função do medo que essas famílias ainda têm por causa do que viram. O próprio setor de Engenharia da prefeitura orienta a elaboração de projetos com estrutura mais reforçada. Por isso, uma comissão foi criada para avaliar os riscos dos projetos”, ressalta. “A gente também tem feito recomendações, embora esperemos que nunca mais ocorra uma coisas dessas, e, para que, se acontecer, as pessoas saibam se proteger”, acrescenta.
Só que em se tratando de prevenção aos prejuízos provocados por tornados é preciso mais. Na visão de especialistas não basta ter um radar, um sistema de monitoramento e outro de alerta se a população não estiver treinada. “De nada adianta ter radar meteorológico se a população não está treinada para receber o alerta”, acentua o meteorologista do Ciram (Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), Marcelo Martins.
Otimista, entretanto, ele salienta que o catarinense já está relativamente preparado porque está cansado de passar por inúmeros tempos severos como granizos, ventanias. “Então, há sim condições de fazer um projeto junto com a Defesa Civil. Mas é uma coisa muito complexa, que leva tempo para as pessoas terem credibilidade nesse tipo de sistema”, aponta.
Porém, enquanto isso não acontece, guaraciabenses como a empregada doméstica Dominga já sabem o que fazer. “A gente ora muito, pede a Deus para que nunca mais aconteça isso, nem pra nós nem para os outros”, relata.
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