Praça Giuseppe Palú recebe decoração de Páscoa feita por alunos da rede municipal |
Centenas de agricultores fecham BRs em protesto à demarcação indígena
Mais de 140 famílias do interior de Cunha Porã e Saudades perderão suas terras se a reserva for criada
Uma multidão de agricultores tomou conta de duas das principais rodovias do Extremo Oeste catarinense durante esta sexta-feira, dia 27, em manifesto contrário à criação de uma reserva indígena nos municípios de Cunha Porã e Saudades. Os manifestantes se concentraram no trevo das BRs 282 e 158, visando a anulação da Portaria 175 – que autoriza a Funai (Fundação Nacional do Índio) a fazer o levantamento fundiário na área destinada à reserva indígena. Conforme o presidente do Sindicato do Trabalhadores Rurais de Cunha Porã, Gilmar Ceccon, a reivindicação é para que esse levantamento da Funai seja feito somente após o julgamento final do processo por parte da Justiça Federal, que irá determinar se a terra é de propriedade indígena ou se é dos agricultores. "Sabemos que essas terras são dos agricultores e confiamos muito na Justiça", enfatiza. Ceccon e outros agricultores destacaram que nunca se soube que índios vivessem no local. Segundo o sindicalista, há muitos anos alguns índios passavam pelas redondezas, mas nunca viveram em aldeias. O tamanho da terra destinada em projeto para reserva indígena está em torno de 2,8 mil hectares, abrangendo os dois municípios, sendo que mais de 140 famílias estão instaladas neste local. De acordo com o presidente do sindicato, são todos agricultores familiares, com propriedades pequenas que não ultrapassam a média de 13 hectares por família. "Acreditamos que a manifestação traga os resultados esperados, principalmente na vontade política. O que estamos pedindo é apenas a revogação desta Portaria", destaca. Os manifestantes também reivindicam maior agilidade no julgamento do processo na Justiça, pois já se passaram anos de incerteza sobre o futuro do local. De acordo com Ceccon, todas as famílias residentes no local já sofreram muito e ficam a cada dia mais apreensivas. Este também é o sentimento do agricultor da linha Itapé, interior de Saudades, José Inácio Zimmer, que enfatizou que nasceu no local e quer morrer ali. Zimmer, residente na comunidade há mais de 50 anos, não sabe explicar como surgiu o projeto de demarcar área indígena no local, já que aldeias indígenas nunca se instalaram no local. "Lamentavelmente nós estamos sofrendo uma pressão e ficamos pensando como será o futuro, mas temos a certeza de que não vamos sair das nossas terras. Vamos resolver essa situação o quanto antes possível, porque nessa situação nós não queremos ficar", acredita. Prefeitos e vereadores dos dois municípios atingidos pelo projeto, e de cidades vizinhas, apoiaram a manifestação. Mais de 50 faixas estavam espalhadas pelo local, com apoio de empresas, associações, cooperativas, escolas e entidades, aos agricultores. A manifestação iniciou por volta das 9h da manhã e a Polícia Rodoviária Federal esteve no local para controlar o trânsito. Filas quilométricas se formaram em três trechos das rodovias. Por volta das 12h o trânsito foi liberado e voltou a ser interditado cerca de duas horas depois. Segundo a Polícia Rodoviária Federal o protesto encerrou por volta das 18h20. SOLUÇÃO No início da tarde de ontem, uma comitiva composta por agricultores, sindicalistas e políticos vieram a São Miguel do Oeste para uma conversa com a procuradora geral da Justiça no município, Maria Rezende Capucci, numa tentativa de anulação da Portaria. Mas até o fechamento desta edição, a procuradora não se encontrava no Ministério Público Federal e não havia se encontrado com a comitiva. Um reunião foi marcada ainda na tarde de ontem para a próxima segunda-feira, dia 30, às 10h na Justiça Federal de Chapecó, com a procuradora e o juiz federal local. O deputado federal Celso Maldaner (PMDB), que é natural de Maravilha, esteve no local. Segundo o deputado, infelizmente a manifestação é a única maneira que se tem para resolver problemas como este, assim como são os ‘Movimentos dos Sem Terra’ e os índios em todo o País. "Nós, como deputados, estamos fazendo a nossa parte. Para se criar uma área indígena é preciso encaminhar um projeto especificamente para os deputados fiscalizarem e aprovarem essa criação, como ocorre com os quilombolas e reservas permanentes, mas para isso é demorado. Temos a garantia do Ministério da Justiça de que, enquanto não se decidir na Justiça, fica suspenso qualquer ato. Fomos até a Funai e eles alegam que se eles não tomarem providência, o Ministério Público Federal irá processar o presidente da Funai. Então por isso essa conversa com a procuradora Maria Rezende, numa tentativa de sensibilizá-los a não executar nenhum ato administrativo enquanto não se tenha a conclusão pela Justiça", explica. Os agricultores residentes nas localidades atingidas pelo projeto compraram essas terras na década de 1920, com a colonização dentro da Lei. "Não temos nada contra os índios, mas essa é a maior injustiça do mundo. Tirar esses pequenos agricultores de suas propriedades é causar um outro problema social. Estamos fazendo o que podemos e principalmente defendendo o direito dos agricultores. Nestes locais temos as terceiras gerações das famílias colonizadoras e os índios que passaram pelo local eram nômades, então, se isso for direito de reivindicação de terra, teríamos que devolver todo o Brasil", enalteceu Maldaner.
Mais sobre:









Deixe seu comentário