A saga do clima

A saga do clima
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Em meio a mudanças e transformações o homem ainda tenta entender como age e se comporta a natureza e busca por meio de estatísticas prever o que é praticamente imprevisível: o clima

Será que chove hoje? Quem nunca iniciou uma conversa com essa interrogação? Dificilmente você vai dizer que não fez isso, afinal poucos assuntos são tão populares quanto o clima. O frio, o calor, a nebulosidade, a chuva intensa e as secas prolongadas, além de temporais, furacões, geadas e granizo são responsáveis por grande parte do início de conversas entre pessoas estranhas, e até mesmo entre aqueles que se conhecem há longa data.

Falar sobre as condições do tempo, em nossa região, e em vários lugares do mundo é algo normal e faz parte do quotidiano, mas há quem repudie este tipo de diálogo, pois para elas falar sobre o clima é pura falta de assunto. No entanto, o assunto é sério e o que você vai ler a seguir, sem dúvida, irá chamar sua atenção.

O CLIMA ESTÁ MUDANDO?
Apesar de haver a previsão do tempo, pode-se dizer que o clima, cuja principal ferramenta de investigação é a estatística, é praticamente imprevisível. Afinal, quem nunca saiu de casa crente que não choveria e tomou aquele banho de chuva? O tempo muda muito repentinamente e, apesar de todo o aparato para se prever estatisticamente alguma mudança, é difícil saber de fato o que resultará a ação de elementos meteorológicos como a temperatura, a precipitação, o vento, a umidade e a pressão do ar, por exemplo.
Na semana passada, reações do clima causaram transtorno, destruição e muitas mortes no Brasil, principalmente na região Sudeste do país. O Rio de Janeiro foi o estado mais afetado e o número de vítimas, que não param de ser contabilizadas, já ultrapassa 670. Isso sem falar na seca que assola parte do Nordeste e também o Rio Grande do Sul. Ações avassaladoras do clima também são sentidas em várias partes do mundo, recentemente acompanhamos intensas nevascas nos Estados Unidos e na Europa, sem falar das inundações que também atormentam a Austrália. A própria região Extremo Oeste, já sentiu na pele o resultado das ações do clima.
Mas afinal, isso é normal? O que de fato está ocorrendo com o clima? E o que podemos esperar?
Conforme a meteorologista e doutora em meteorologia da Epagri de Florianópolis, Claudia Camargo, as mudanças climáticas estão ocorrendo e vários estudos compravam isso. “As mudanças estão realmente acontecendo e o clima apresentou uma alteração nos últimos anos, nas duas últimas décadas em especial. Houve alteração tanto da temperatura quanto da precipitação. Temos diferentes trabalhos na Epagri que mostram esses resultados”, destaca.
Conforme a meteorologista existem diferentes fatores que podem estar relacionados ao aumento das temperaturas e variáveis do clima, tais como: efeitos urbanos, ações no solo, crescimento desordenado e o desmatamento.
Para Claudia, se forem feitas comparações entre regiões onde foi substituído o solo por asfalto pode-se perceber um aquecimento mais acentuado. “Nesses lugares onde houve essas alterações, percebemos durante o dia uma maior absorção de calor e a noite uma maior liberação. Isso provoca um maior aquecimento em torno dessa região”, explica.
O crescimento desordenado que geralmente ocorre em grandes cidades e capitais, somado ao desmatamento também são fatores preponderantes que contribuem e acentuam as mudanças climáticas ao longo dos anos.
 
TRAGÉDIA
A meteorologista explica que as enchentes que ocorreram no Rio de Janeiro foram em função da ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). “É um canal de umidade que vem do Norte para cá e juntando com o calor gera um choque de massas com faixa de atividade intensa e ao mesmo tempo uma estabilidade maior”. No entanto, é bom frisar que nessa época do ano o Sudoeste apresenta por característica um período chuvoso. “Isso é uma característica daquela região, então com essa intensificação e com processos que contribuem para essa situação, podem ocorrer essas tragédias”.

“PREVENDO O IMPREVISÍVEL”
Muitos centros meteorológicos se arriscam e lançam previsões climáticas ao longo de até três meses. Mas isso não é garantia, pois como já comentamos, em meio a inúmeros fatores, combinações e reações que o clima pode passar, a previsão do tempo não passa de uma simples tentativa de se prever o que pode, ou não, ocorrer no futuro, em se tratando do clima.
Conforme o site da Epagri, a previsão para esse trimestre de janeiro, fevereiro e março é de chuva entre a média e abaixo da média climatológica em Santa Catarina. Para este mês estão previstas, chuvas frequentes, com volumes significativos em curto espaço de tempo e com temporais isolados. Já em fevereiro e março, a perspectiva até o momento é de períodos mais prolongados sem chuva. No trimestre, a média mensal de precipitação é de 150 a 240 milímetros.
Com relação à temperatura, se espera que fique próxima do normal para época do ano, com ondas de calor - período prolongado com dias consecutivos de calor intenso - principalmente em fevereiro e março. Mas, não se descarta a possibilidade de uma ou outra massa de ar, um pouco mais frio, que amenize a temperatura por até dois dias.
“Neste ano, embora o fenômeno esteja caracterizado com intensidade moderada a forte, com volumes mensais abaixo da média em  diferentes localidades de Santa Catarina, as chuvas apresentaram uma distribuição diária melhor que em relação a outros episódios de La Niña”, diz Claudia. Ela ainda alerta que o fenômeno La Niña, que se difere ano após ano, exige certa atenção e cautela em relação a agricultura.

CALDEIRÃO DO EXTREMO OESTE
Conhecida por realizar há mais de 30 anos a Oktoberfest mais tradicional de Santa Catarina e ser o berço nacional da festa, Itapiranga também carrega outro fato peculiar, o de cidade mais quente do Estado, no entanto, poucos levam esse fator em consideração.
Segundo o agrônomo e extensionista da Epagri de Itapiranga, Luiz Espindola, se forem considerados os meses de verão e as médias mensais de temperaturas máximas, Itapiranga se caracteriza como a cidade mais quente de toda Santa Catarina.
De acordo com Espindola, o forte calor ocorre principalmente em função da altitude, já que a região onde está localizada a cidade, no sudoeste do Estado, é uma das mais baixas. “Se desconsiderarmos o litoral, que está no nível zero, o município mais baixo de Santa Catarina é Itapiranga que chega a ter altitudes de 150 metros”, revela.
Para se ter uma noção da influência da altitude na temperatura, acompanhe o seguinte raciocínio: Em termos gerais, a temperatura para uma mesma latitude, varia um grau a cada 180 metros de altitude. Por exemplo, se você está em um município com altitude de 150 metros e se desloca para outro com altitude de 550, há uma variação de 400 metros, dentro desta escala, para sabermos a diferença de temperatura dividimos 400 por 180 e teremos uma variação de 2,2° C. Para se ter um ideia, 400 metros é quase a diferença de altitude entre Itapiranga e São Miguel do Oeste.

CLIMA AMENO
Durante os meses de inverno, o agrônomo explica que as temperaturas em Itapiranga são mais amenas. “Isso ocorre pela interferência térmica reguladora do Rio Uruguai que lança muita umidade no ar e não deixa a temperatura baixar. Tanto que dificilmente ocorre geada no município”.
Essa condição climática em Itapiranga apresenta algumas situações interessantes. “A floração de uma das árvores nativas da região, o Ipê Roxo, acontece antes aqui do que nas demais cidades”, diz Espindola. E isso ocorre devido às condições de temperatura.
“A temperatura no município favorece muito o desenvolvimento de plantas tropicais, que se adaptam melhor ao calor e longe do frio. Em Itapiranga o clima favorece a produção de melancia que, devido ao clima, amadurecem mais cedo, o que faz com que os produtores da fruta no município saiam em vantagem, pois adentram no mercado mais cedo que os produtores dos demais lugares”.

INCOVENIENTES
Ao mesmo tempo que o clima itapiranguense favorece algumas espécies de plantas, o calor do município também apresenta aspectos negativos para certos cultivos. “Por exemplo, um tipo de feijão preto, se ocorrer picos de temperaturas altas acarretará no aborto de todas as flores”, exemplifica Espindola. O milho, de acordo com ele, também sofre: “Essa planta se adapta bem em lugares quentes durante o dia e frescos durante a noite, se formos comparar, em Itapiranga a produção do grão de milho por hectare é de cerca de 100 sacos, para se ter um ideia em Chapecó ou Xanxerê a produção é de uns 200 sacos por hectare”.

ITAPIRANGA 40º C
A capital carioca é famosa por ultrapassar os 40º C no verão escaldante. Mas essa temperatura também já foi registrada em vários lugares do Brasil e dentre estes registros está Itapiranga. Foi no verão de 2009, o calor intenso fez com que o medidor atingisse 44° C. No entanto, segundo Espindola, a medição não é oficial por que o termômetro eletrônico está localizado no meio da cidade, o que de certa forma sofre a interferência de diversos fatores, como o calor do asfalto, por exemplo.
Segundo a Epagri, em 2008, as médias mensais das máximas nos meses de verão em Itapiranga foram de 32,1° C, o que garantiu a cidade, o título de município com média de temperatura máxima mais elevada de todo o Estado. Na segunda posição da lista aparece Blumenau (30.9º C) que também apresenta baixa altitude, mas por estar bem mais próxima do litoral.

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Edição 1590 - 19-01-2011

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